Enquanto o leite materno não vem…

Imagem: Pinterest

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Há um espaço-tempo tão sutil e delicado no pós parto, entre o parto e a primeira mamada efetiva do bebê, que muitas de nós passamos por ele despercebidas… e eu me dei conta que só um olhar muito empoderador é capaz de identificá-lo com precisão. Essa foi uma experiência real que aconteceu comigo e resolvi escrever sobre ela: enquanto o leite materno não vem…

De todas as teorias sobre a apojadura (descida do leite) que conhecemos, nenhuma é tão importante quanto a de tranquilizar a mãe de que o seu leite vai descer, e o mais importante, estabilizar um processo que envolve sentimentos de angústia, dúvidas, incertezas e o começo da culpa materna que se instala em uma fração de segundos naquele tempo “eterno” das primeiras 72 horas enclausuradas dentro de um quarto de maternidade após o nascimento do seu bebê.

 

Não vou citar as teorias, porque vocês a sabem de cor. Mas vou citar algumas verdades que, de tão simples, acabam por serem ignoradas em 99% das vezes quando uma equipe bem intencionada, cerceia uma mãe para que ela consiga amamentar e fazer o bebê cessar o choro, e, ganhar peso.

  • O choro é NECESSÁRIO para o que o leite desça

Quando empoderamos uma mãe dizendo que ela tem duas escolhas, 1) a de se entregar a ideia de que o choro significa que seu bebê sente fome e portanto, é um alarme em alto e bom som do seu primeiro “fracasso” como mãe ou, 2) a segurança de que, enquanto seu bebê chora, um verdadeiro milagre acontece e suas mamas enchem pelo estímulo da hipófise, você está dando a grande possibilidade dela não se entregar à culpa tão precocemente.

  • Em hipótese alguma, FORÇAR o bebê a pegar o seio

A ação é quase automática: o bebê ainda está chorando mesmo com o bico do seio da mãe na sua boca e as mãos que o auxiliam, acabam por empurrar a cabeça dele contra o peito. O bebê reage negativamente, claro! E o caos se instala… Não é para ser, simplesmente não funciona assim. Acalentar o bebê, cessar o choro e recomeçar todo o processo é a ação mais respeitosa com esse lindo serzinho que acaba de chegar neste mundo confuso. Calma, calma e calma.

  • Enquanto o leite não descer, o COLOSTRO é um gotejar essencial

Há mais pressa no “ganho de peso pela perda de peso” e um fantasma chamado “hipoglicemia” que ronda solto no berçário do que a urgência da mãe se sentir segura com o seu papel fundamental em amamentar.  Ela ouve constantemente uma ladainha sem fim de que: “seu bebê TÊM que ganhar peso, TÊM que mamar, TÊM que cumprir o protocolo para ter a alta hospitalar”. Eu sei que tudo isso é importante, nós sabemos disso, mas porque não apenas poupar a mãe desta pressão e simplesmente cuidar para que atmosfera do ambiente promova uma paz tão maravilhosa onde o seu leite vai descer natutalmente e ela finalmente vai conseguiramamentar?

  • Respeite os atores deste lindo acontecimento da vida chamado AMAMENTAÇÃO

Quando nos colocamos na posição de simples espectadores aguardando o milagre da vida, abrimos todos os caminhos para que mãe e bebê atuem no grande e maravilhoso papel de se vincularem afetivamente através deste momento. A mãe que produz o alimento essencial através do seu próprio corpo e o bebê que utiliza o seu instinto de sucção para fazer com que o leite finalmente preencha todos os espaços daquelas mamas. A equipe assiste, a dupla atua. As primeiras orientações foram dadas; agora pelo amor de Deus, deixe que ambos concluam o que começaram!

  • Se o bebê chora de fome, SACIE-O com o leite ordenhado da sua mãe no copinho, porque não?

Este “Plano B” pode funcionar maravilhosamente quando as coisas não estão indo tão bem como planejado. As horas passam, o bebê não mama e o leite não desce… antes de mencionar que “o copinho vai fazer o bebê desmamar”, ajude o leite a descer massageando as mamas desta mãe. Você não só proporcionará alívio para ela como irá saciar o bebê com aquele leite que sai involuntariamente. O choro cessa, o bebê se acalma. Nessa hora ele pode voltar para o colo da sua mãe, ouvir sua voz, se sentir acalentado nos seus braços e tudo recomeça.

  • O bebê finalmente MAMA 

Após esse exercício intenso de empoderamento materno (o conhecimento que dá segurança, a fala com empatia que tranquila e o olhar nos olhos que acalma) a mãe finalmente consegue estabilizar suas emoções tão desorganizadas pelo desafio da intensidade que o choro do seu bebê causa dentro de si mesma, que ela se torna capaz de anular todas as vozes exteriores ao seu redor naquele momento e se centrar na sua voz interior. Dia após dia, ela se vê mais forte e mais segura para encarar  todos os desafios que a maternidade lhe reserva.

O que ela mais deseja naquele momento, é voltar à sua casa e a sua rotina. Deitar na sua cama, tomar banho no seu chuveiro, estar novamente no seu lugar de acolhimento. Os três dias na maternidade então, passam rapidamente e agora é ela e o seu bebê. Se o processo do seu empoderamento foi positivo, ela seguirá adiante com êxito. Claro que é só o começo, claro que há muito o que ser entendido, compreendido, orientado e apoiado.

Eu só fico na torcida para que, familiares e amigos mais próximos, cuidem das reais necessidades desta mãe nestes primeiros momentos de volta ao lar com um recém-naacido: talvez uma boa e gostosa comida caseira, ajuda com a organização casa, deixando tudo pronto e à mão para ela enquanto amamenta o seu bebê!

Um beijo com carinho,

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