Um bebê pode morrer de fome só mamando no peito?

Resposta às especulações sobre o bebê morrer de fome em AME pelas moderadoras do grupo “Falando de Amamentação Gemelar (FAG)” no Facebook.

Imagem: Pinterest

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SURGE UM ASSUNTO POLÊMICO NAS MÍDIAS SOCIAIS:

” Nasceu, há 5 anos, um bebê americano a termo com 3.360 kg de uma cesária de emergência por suposto sofrimento fetal, com Apgar 8/9; sem intercorrências do parto, peso ótimo e com reservas de gorduras satisfatórias. A mãe foi identificada com problema na lactogenese II por avaliação com consultora de amamentação, enfermeira e médico, tudo baseado em informações de anamnese: diabetes limítrofe, síndrome do ovário policístico, pequeno problema de infertilidade e bico do peito pequeno durante a gestação. Citam também, que quem identificou o problema de baixa produção foi um consultora certificada pela IBCLC (International Board Certified Lactation Consultant) dentro da própria maternidade onde o bebê nasceu,  responsabilizando assim a consultora, que não é a responsável em emitir o diagnóstico final e nem realizar exames médicos. Por fim, o bebê chegou à óbito aluns dias após a alta do hospital e o atestado de óbito alegou a causa da morte como: desidratação hipernatrêmica e parada cardíaca por choque hipovolêmico (hipotermia)*”.

*Leia toda a história em: https://fedisbest.org/2017/02/given-just-one-bottle-still-alive/ (Em inglês)

Diante da grande polêmica em torno do velho debate sobre a fórmula ser necessária para que os bebês não tenham desidratação por algum problema com a amamentação da mãe, decidimos trazer considerações importantes (baseadas em evidências científicas) de que nenhum dos problemas citados na matéria é um impeditivo absoluto para a amamentação exclusiva.

São elas:

  • Esta mesma equipe do hospital avaliou a pega como “perfeita” e encorajou a mãe a amamentar.

Contradição, porque não é satisfatório avaliar uma pega como perfeita se de fato está ocorrendo um problema na amamentação. Precisa de mais que uma pega perfeita para efetivar as mamadas.

  • O texto trata como se a fórmula artificial fosse negada pelo hospital e a amamentação exclusiva imposta como obrigatoriedade.

No Brasil, o protocolo dos hospitais com a certificação “Amigo da Criança” priorizam a amamentação, mas, a ideia que o texto passa é a de que, investir no aleitamento materno exclusivo, foi neste caso e em outros semelhantes prejudicial.

  • Relatam que o bebê não largava o peito, ficando plugado 24hs por dia na mãe.

A impressão é que tratam isso como algo negativo, quase uma patologia, ignorando as necessidades vitais de contato integral com a sua mãe, principalmente no primeiro trimestre, a chamada Exterogestação. 

  • Disseram também se tratar de um bebê cluster-feeding, que mama a cada hora ou interruptamente, associando isso a produção escassa da mãe.

Tratam o choro como se fosse uma manifestação exclusiva de fome. Sabemos que o peito não é só alimento, mas principalmente, segurança e alimento emocional para um bebê.

  • Informam que o bebê não fazia xixi nem cocô na frequência esperada.

Mas não foram realizados (e nem citados no texto) quaisquer exames para investigar problemas de absorção do leite materno, mal funcionamento gastrointestinal ou outras anomalias.

  • Ainda, quem escreveu o texto associou a frequência da amamentação ao número de fraldas sujas sugerindo que a alimentação era insuficiente.

Uma associação absurda de horas mamando x número de fraldas sujas, pois espera-se que o bebê em livre demanda tenha um ritmo padronizado de eliminação, mas, não se deve cronometrar as mamadas tendo em vista que os padrões de sucção, absorção e sono do bebê, variam de bebê para bebê.

  • Tem um parágrafo comparativo das horas mamando no peito e a perda de peso em porcentagem.

Mesmo sendo a perda de peso pós nascimento um fator esperado e conhecido (devido ao acúmulo de gordura assim que um bebê nasce, justamente para esperar o tempo da apojadura do leite maduro da mães) esse terrorismo com o peso dos bebês pode interferir negativamente na amamentação.

  • Mencionam que amamentar estava “queimando mais calorias” que as fornecendo e citaram a “Síndrome da Segunda Noite”, quando o jejum no primeiro dia causa consequências para o bebê.

Em nenhum momento houve a orientação de complementar com o próprio leite na mãe em um copinho, seringa, colher ou na sonda. Nenhuma orientação sobre a técnica da compressão das mamas (para extração do leite) ou o uso da técnica do bebê canguru (para estimular a descida do leite). A Síndrome foi citada, mas não foi realizada a triagem bioquímica para investigar se, de fato, a suspeita se confirmaria neste caso.

  • O bebê havia perdido 9,7% do peso do nascimento, no momento da internação na maternidade.

A literatura médica lida com um esperado de 10% de perda do peso ao nascer e cita 15% de acúmulo de gordura destinado para essa perda natural.

  • Mãe e bebê receberam alta hospitalar no prazo esperado.

Ou seja, para o hospital estava tudo OK com este bebê.

  • Em casa ela seguiu amamentando de acordo com a própria recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde).

Supostamente em Livre Demanda e com a pega perfeita diagnosticada por esta equipe.

  • O bebê tem hipotermia e morre. O atestado de óbito alega: desidratação hipernatrêmica e parada cardíaca por choque hipovolêmico.

Falta de água corporal, falta de sódio e pouco volume de sangue no corpo do bebê. Todos estes componentes estão presentes no colostro e no leite de transição (leite maduro) em proporções ideais para nutrir um recém-nascido.

  • O texto não é científico, tem apelo emocional e foi promovido pela Fundação “Fed’s Best” que é dedicada à prevenção da inanição de recém-nascidos e lactentes devido à insuficiência de amamentação exclusiva.

Para uma mãe que está produzindo o colostro, amamentando e o recém nascido não está sendo nutrido a primeira providência é avaliar se a mamada está sendo efetiva, uma equipe bem preparada, como fonoaudiólogas, enfermeiras, nutricionistas, doulas, consultoras de amamentação e até o próprio pediatra vai observar tudo: a pega, o tempo das mamadas, a musculatura oro facial do bebê e, principalmente, apoio efetivo à mãe para este momento crucial de estabelecer uma amamentação bem sucedida. Se tudo isso estiver dentro dos padrões de normalidade passa-se a investigar por doenças congênitas, se há alguma suspeita. O bebê em questão, não tinha o funcionamento esperado do trato gastro intestinal. Simplesmente não dá pra alegar que ‘ele não mamou o suficiente’.

Para enfatizar a importância do colostro segue abaixo um breve levantamento bibliográfico realizado pela nutricionista materno infantil, Luciana Silveira, contendo quadros comparativos entre o colostro, o leite de transição e finalmente o leite maduro.

A composição do LH varia entre as mulheres e em relação à própria mulher, com diferenças relacionadas com a composição em energia, macronutrientes e micronutrientes. Os fatores que podem influenciar esta composição são individualidade genética, nutrição materna, fase de lactação (Picciano, 2001).

O colostro humano é definido como o primeiro produto da secreção láctea da nutriz, até o 7º dia pós-parto. Apresenta aspecto amarelado e espesso, possui maior conteúdo de proteína, vitaminas lipossolúveis e minerais, como o sódio e o zinco, e menor teor de gordura, lactose e vitaminas hidrossolúveis, quando comparado com o leite maduro. O volume produzido varia amplamente, de 10 a 100 mL/dia, com média em torno de 30mL, aumentando gradualmente até atingir a composição do leite maduro.

Possui ainda altas concentrações de fatores de defesa, como as imunoglobulinas (IgA, IgM, IgG), lisozimas, lactoferrina, fator bífido e outras substâncias imunomoduladoras, além de agentes anti-inflamatórios, destacando-se os fatores de crescimento e os leucócitos, conferindo proteção ao recém-nascido (Akré, 2010).
Pelas suas características nutricionais e imunológicas, o colostro está bem adaptado às necessidades específicas do RN. Os seus rins, imaturos, não conseguem processar grandes volumes de líquidos; a produção de lactase e outras enzimas intestinais está começando; antioxidantes e quinonas são necessários para a proteção contra o dano oxidativo e a doença hemorrágica; as imunoglobulinas forram a sua imatura flora intestinal, impedindo a aderência de micro-organismos patógenos; e os fatores de crescimento estimulam seus sistemas vitais (Akré, 2010).

 

Características do leite de mães de prematuros


O leite de mães de prematuros possui maiores concentrações de calorias, gorduras, proteínas, sódio e IgA e menores de lactose, cálcio e fósforo que o leite de mães de recém nascidos a termo. Também possui maior capacidade anti-infecciosa, por conter maior quantidade de IgA, lisozima e lactoferrina (Matuhara, 2006; Lamounier, 2009; Gross, 1981).
Entre as vantagens do fornecimento do leite humano ao recém nascido prematuro destacam-se as relativas a suas propriedades imunológicas. Quando as mães destes recém nascidos permanecem no hospital durante a sua internação, ocorre a produção materna de anticorpos contra os micro-organismos nosocomiais da unidade neonatal, o que é importante para a prevenção de infecção durante a permanência hospitalar (Goldman, 1994).

Estudos tem apontado a diminuição de incidência de várias infecções, como septicemia e enterocolite necrosante, em lactentes prematuros alimentados com LM, em comparação com os que utilizaram fórmula infantil (Matuhara, 2006; Oliveira, 2005). Quadro comparativo abaixo:

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Já estão circulando em blogs versões cortadas e traduzidas com o título ‘uma única mamadeira salvaria essa vida‘. A indústria está se aproveitando desse material de forma desleal. A indústria faz isso. Pega casos isolados, não investigados e distorcem os fatos de modo a alcançar seu objetivo maior: FOMENTAR A INDÚSTRIA DO LEITE ARTIFICIAL. FUNDAÇÕES FINANCIADAS PELA PRÓPRIA INDÚSTRIA PROMOVEM ESTES ESTUDOS INCOMPLETOS E TENDENCIOSOS, SEM METODOLOGIA CIENTÍFICA NEM ABORDAGENS ESTATÍSTICAS NECESSÁRIAS. SITES E BLOGS, SEM NENHUM COMPROMISSO COM A AMAMENTAÇÃO E COM OS IMPACTOS QUE TAIS INFORMAÇÕES ERRADAS CAUSAM NA SOCIEDADE, DIVULGAM E CONTRIBUEM PARA NATURALIZAR O DESMAME DE MUITOS BEBÊS. NÃO PROPAGUEM SENSACIONALISMO, NÃO ACREDITEM EM TUDO QUE VENDEM! CUIDADO COM A INDÚSTRIA!

***Todas nós sentimos muito a perda dessa vida. Utilizar do sofrimento dessa mãe para difundir mitos que podem prejudicar muitas outras mães e seus bebês é baixo, é muita maldade. Desejamos uma assistência adequada às lactantes do mundo todo.***

Equipe de moderação do grupo FAG- Falando de Amamentação Gemelar da rede AMS- Aleitamento Materno Solidário.

FONTES:

Emmett PM, Rogers IS. Properties of human milk and their relationship with maternal nutrition. Early human development 1997; S7-S28.

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Banco de leite humano: funcionamento, prevenção e controle de risco/ Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Brasília: Anvisa 2008. p.124

Akré J. Alimentação infantil: bases fisiológicas. IBFAN: São Paulo 1997; 16-21. Brasil.

Ministério da Saúde. Saúde da criança: nutrição infantil: aleitamento materno e alimentação complementar. Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. Brasília (DF): Caderno de Atenção Básica 2009; 23 (A): 112p. IMIP – Instituto de medicina Integral Prof. Fernando Figueira.

Nutrição Clínica – Obstetrícia e Pediatria. Rio de janeiro: MedBook, 2011.

 

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