Bebês não sofrem de cólicas: entendendo o conceito

Fonte: Pinterest

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A minha primeira experiência com as temidas “cólicas” em recém-nascido foi a mais traumatizante possível com a primeira filha. Foram três meses de muito choro, noites mal dormidas e uma sensação de impotência incrível. Meu seio vazava leite, mas nada a consolava. Certo dia desapareceu… Com o meu segundo filho, e já com mais experiência, esperava passar pela mesma coisa, e qual foi a minha surpresa: ele não tivera um dia sequer de cólicas, dormia a noite inteira com três meses. Seria um sonho? Quando a minha primeira sobrinha nasceu e fui acompanhar o primeiro mês dela, que além da experiência com dois filhos, possuía todo o empoderamento e embasamento científico de estudos e aprofundamento do tema. E mais uma vez o sucesso se repetiu: mamava muito bem, dormia muito bem e, ausência de cólicas. Vou escrever hoje sobre o conceito de que bebês não sofrem de cólicas.

Estas três experiências me fizeram refletir, diante de diversos relatos aqui na Comunidade de Mães, que poderia existir uma explicação para o conceito de cólicas em recém-nascidos. Elas seriam cólicas mesmo? Ou um conceito culturalmente adquirido pela sociedade durante a transmissão de saberes de geração para geração? E me debrucei então, em três textos que são muito recomendados aqui na comunidade, e que, não são artigos científicos, mas escritos por pediatras e escritores muito respeitados pelas mães (alguns deles, em todo mundo), que pudessem me trazer pistas e iniciar uma reflexão que no futuro, pode servir de inspiração para diversas pesquisas empíricas neste assunto.

O primeiro conceito já provado é a fase da exterogestação do bebê nos primeiros meses de vida. Em razão do seu cérebro desenvolvido de todos os outros mamíferos e o fato do ser humano ter a capacidade de ficar em pé, a pressão na passagem do canal vaginal tornaria impossível de ser esperar uma gestação de mais de um ano, sendo necessária a saída prematura do bebê, nos seus aspectos maturacionais do seu organismo e da sua estrutura do sistema nervoso, levando a ideia de que os bebês nascem antes do tempo, imaturos, ainda um feto, e que a fase da extero útero nos primeiros três meses seria fundamental para a sua maturação sadia e a sua prontidão para “chegar ao mundo”.

Pensando neste conceito e através de diversas pesquisas, o pediatra americano, Dr. Harvery Karp criou o método de cinco passos para auxiliar e atender prontamente ás necessidades reais do bebê neste primeiro trimestre. Basicamente seu método ensina a importante da reprodução das sensações uterinas do bebê para que sua memória afetiva seja familiar e que ele possa continuar a sua maturação na maior tranquilidade possível. O conceito da “Criação do Apego Seguro” escrita por outro pediatra americano Dr. Sears, que é a dependência de cuidado do bebê humano por um longo período por seus pais ou cuidadores.

Em algumas culturas(como africanas e asiáticas, como exemplo), o termo cólica é inexistente em bebês, pois os mesmos, passam longos períodos “colados” ao corpo de suas mães, principalmente pela prática do uso do sling. Então, os cinco passos propostos pelo Dr. Karp vem sendo uma solução eficaz pra o choro-cólica dos recém-nascidos:

O 1º) embrulhar o bebê e apertá-lo semelhantemente à situação do útero materno, transmitindo a sensação de “aperto” e aconchego;

o 2º) Colocar o bebê na posição de lado, assim como a posição no útero, com a cabeça pendida, a coluna encolhida e as pernas junto ao corpo;

o 3º) Reproduzir os “sons” do ambiente uterino: respiração da mãe, batimentos cardíacos, circulação sanguínea, o famoso “shhh”;

o 4º) o balanço, constante movimento da mãe em sua vida cotidiana e

o 5º) a sucção apurada e a importância do aleitamento exclusivo em Livre Demanda para atender ás necessidades do bebê, muito evidentes através do seu choro agudo e relevante).

Muitas mães que orientamos na comunidade, inclusive minha irmã com minha sobrinha, seguiram este processo e foi positivo. O bebê com suas necessidades extero uterinas atendidas, teriam menor incidência de choros desconsoláveis, que além do conceito de fome e leite insuficiente da mãe, estaria relacionado aos episódios de cólicas.

Já o Dr. Carlos González aborda e ideia do conceito de cólicas de uma maneira particularmente interessante. Explica a cólica como “uma contração espasmódica e dolorosa de uma víscera oca; há cólicas dos rins, da vesícula e do intestino”, onde, sem a queixa verbal do paciente, seria impossível detectá-la. E que muitos livros sobre o assunto a nomeiam como “choro excessivo na infância” para evitar a sua compreensão errônea. E assim como a teoria do Dr. Sears, defende que o bebê necessita apenas de uma única coisa: o colo de sua mãe.

Como os bebês parecem ter um pico do choro á tarde, acabam por relacionar ao aparecimento das cólicas. Este período, porém, têm diversas explicações, e ume delas, pelo pediatra Dr. José Martins Filho explica que “o nível da prolactina, costuma ser um pouco menor à tarde. Também a taxa de gordura do leite pode ser um pouco menor neste período. Isso talvez explique porque algumas crianças começam a chorar mais nesse horário, sobretudo nas primeiras semanas”.  A solução de dar o seio é um consolo para o bebê sem dúvida. Mas ás vezes, a oferta demasiada, e a falta de conhecimento das etapas da exterogestação podem parecer que oferecer o seio materno não seja realmente suficiente.

Outro fator que ele menciona é a exaustão da mãe e a falta de apoio como fator agravante para o choro do bebê, e dela! Ele diz que o bebê pode chorar sim porque está cansado de tanto mamar, e que, o que ele apenas desejaria, era descansar um pouco no colo de sua mãe e pegar no sono. A única forma que o bebê conhece de se relacionar com a mãe é mamando, e seria interessante ensiná-lo outras, como sugere o casal Sears. E, sugere uma tabela para a mãe se relacionar com o seu bebê neste momento, do Dr. Taubman, publicada pela Revista Pediatrics, em 1984:

Instruções para tratar a cólica, segundo Taubman (Pediatrics 1984;74:998)
1- Tente não deixar nunca o bebê chorando;

2- Para descobrir por que seu filho está chorando, tenham em conta as seguintes possibilidades:

  1. a) O bebê tem fome e quer mamar;
  2. b) O bebê quer sugar, mesmo sem fome;
  3. c) O bebê quer colo;
  4. d) O bebê está entediado e quer distração;
  5. e) O bebê está cansado e quer dormir.

3- Se continuar chorando durante mais de cinco minutos com uma opção, tente com outra;
4- Decida você mesma em qual ordem testará as opções anteriores;
5- Não tenha medo de superalimentar seu filho. Isso não vai acontecer;
6- Não tenha medo de estragar seu filho. Isso também não vai acontecer.

 

E finalmente, ainda neste contexto da importância do apego e do colo, a escritora Elizabeth Pantley defende o termo ‘cólica em bebês’ e que seria necessária paciência dos pais em relação à maturação do sistema digestivo do seu filho.  Aí a amamentação tem papel fundamental, como explicado por Grasielly Mariano de que o leite posterior, o mais gorduroso, funciona como uma “vassourinha” limpando os resíduos do leite anterior, provocando dores nas cavidades ainda não maduras do frágil intestino do bebê, e que, o mecanismo de gotejamento através da sucção do seio materno, ajudaria a reduzir consideravelmente os episódios de “cólicas”.

E alerta para a incidência comum do Baby Blues (melancolia materna) e a DPP (depressão pós-parto) recorrente em algumas mulheres. O apoio à mãe neste momento é fundamental para que ela exerça a sua maternidade da forma mais natural e tranquila possível. E procurar orientação médica quando houver episódios excessivos de vômitos e movimentos intestinais desregulares.

CONCLUSÃO

Embora não existam evidências científicas que comprovem que o bebê recém-nascido sofra de cólicas, em nossa prática seria possível identificar que os termos e técnicas apresentados acima podem auxiliar mãe e bebê neste momento desafiador da exterogestação. Estou convencida que o empoderamento da mãe através do conhecimento desta fase, a prática da amamentação exclusiva em Livre Demanda, e principalmente o cuidado com apego e a sensibilidade de atender prontamente às reais necessidades do bebê podem ser um novo caminho para acreditarmos que os bebês não sofrem de cólicas, mas, de atenção e falta de vínculo no primeiro momento de sua vida.

Por Simone De Carvalho

Bibliografia:

Como e Por que Amamentar, Dr. José Martins Filho, São Paulo

Socorro eu não sei amamentar! Grasielly Mariano, São Paulo

Soluções para Noites sem Choro, Elizabeth Pantely

The Attachment Parenting Book : A Commonsense Guide to Understanding and Nurturing Your Baby, Dr. Willian Sears and Martha Sears, California

The Happiest Baby on The Block, Dr. Harvey Karp, Bantam Dell, 2002. New York.

Un regalo para toda la vida: Guía de la lactancia materna, Dr.Carlos González, Espanha

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  • Helena Tønnessen

    Importante mencionar que hoje já se sabe que os bebês não nascem aos 9 meses por causa da relação cabeça-pélvis, mas por conta do metabolismo da mãe. Os bebês nascem quando o corpo da mãe já não consegue mais produzir energia suficiente para ambos. http://www.livescience.com/22715-pregnancy-length-baby-size.html

    • Simone De Carvalho

      Muito obrigada pela importante contribuição Helena! Um abraço para você,

  • Simone Costa

    O texto foi muito esclarecedor. Tive muita dificuldade para amamentar o meu filho mais velho e hoje sinto muito mais dificuldade para amamentar o meu mais novo hoje com 28 dias. Entendo que o bebê necessite dos cuidados integrais da mãe, mas sinto falta dos cuidados de alguém próximo, pois fica muito difícil atender ao bebê quando a mãe continua com todas as atribuições cotidianas e ainda precisa dar suporte aos outros. É muito difícil ver o bebê bem quando a mãe não está bem assistida.
    Eu adoraria ser mãe em tempo integral, mas está muito difícil e acredito que seja assim pra grande maioria das mães.