Socorro! Ninguém me disse sobre o que é ter filhos!

Imagem: Pinterest

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Já ouviu aquela famosa frase: “é preciso de uma aldeia para criar uma criança”?

O conceito de aldeia mudou um pouco nas últimas décadas e o que muitas mães vivenciam hoje é a realidade de uma “aldeia virtual”. Há muitos anos, observo e reflito sobre os que milhares de mães compartilham dos grupos de apoio no Facebook – a nossa grande aldeia moderna – e cada vez mais, me convenço que, mesmo uma aldeia virtual gigantesca como esta, ainda não é totalmente capaz de ajudar as mães com os desafios da maternidade, principalmente quando o assunto é ser mãe de mais de um filho(a). O que ainda vejo é um pedido de socorro: “Socorro! Ninguém me disse sobre o que é ter filhos!”.

Parece que estamos longe de uma resposta para esse comportamento. Quando penso na constituição social de uma aldeia indígena, como exemplo, penso logo em um apoio PRESENCIAL; que é muito diferente de uma rede virtual de trocas de ideias e vivências de mães de todos os cantos do Brasil e do mundo. Numa aldeia real, o apoio é também REAL. Digo real no sentido de alguém pegar seu bebê no colo por alguns minutos; olhar o seu filho enquanto você toma um banho em paz; ficar com seus outros filhos algumas horas para você resolver assuntos pessoais e até ter um tempo para se “mimar” ou compartilhar uma refeição para que você não se preocupe, pelo menos naquele dia, com o almoço ou o jantar. Esta é a aldeia de que a frase lá encima se refere. A nossa aldeia é formada de “telas touch“.

COMEÇANDO DO COMEÇO

O Ideal, o desejado, o esperado, seria a existência de um tipo de ritual materno, antes de uma mulher se tornar mãe, como um ritual de “iniciação” . Repassar saberes de gerações em gerações sobre a maternidade sempre funcionou muito bem em épocas passadas, mas em algum momento da evolução da humanidade, este comportamento está quase extinto. Ele ocorreu mais ou menos na época da entrada das mulheres no mercado de trabalho que originou a geração de crianças sendo cuidadas longe de suas mães, terceirizadas e o repasse do conhecimento materno estagnou e muitas  destas crianças ficaram sob os cuidados das avós.

A realidade destas mães foi a de continuar a projeção de suas carreias, trabalhando por muitas horas à fio e deixando a cargo de outras pessoas e instituições os cuidados dos seus filhos. Começou então, um distanciamento progressivo do “cuidar” em sua essência. Ser mãe hoje é planejar (e pagar) pelo cuidado dosdos seus filhos enquanto você trabalha fora.

Bom, neste novo movimento que surge nas redes sociais, e a partir do ano 2000, uma tentativa de retomar a autogestão da maternidade por muitas mulheres voltou a acontecer. Mas temos uma questão aí: estas mães são as mesmas crianças terceirizadas por suas mães na década anterior, lembram? E aí, chego ao ponto que quero discutir com vocês neste texto. São mães que não aprenderam sobre o que é cuidar de fato de um bebê. Elas aprenderam que ter filho é ter uma babá ou pagar por um berçário. Problema resolvido.

A REAL MATERNIDADE DE DOIS FILHOS OU MAIS

Não saber o que é a realidade de ter mais de um filho é algo incrivelmente assustador que percebo nos relatos de muitas mães nas redes socias. Quando vivemos a experiência da maternidade com o primeiro filho, parece que a vida materna segue o seu percurso natural: temos tempo, entusiasmo, dedicação e fôlego para ele. Geralmente com o primeiro filho, vivemos intensamente a maternidade: curamos nossa criança anterior, mergulhamos de corpo e alma nesta experiência s-i-m-p-l-e-s-m-e-n-t-e apaixonante e cheia de aprendizados, estamos em dedicação integral e exclusiva, vivenciamos cada etapa do seu desenvolvimento e cada dia é uma incrível experiência que muitas vezes nos faz pensar que realmente “nascemos para isto”.

Até mais ou menos o 3o ano de vida do bebê, a dependência da mãe de atenção, paciência, vínculo e amor é intensa. Teoricamente, esse seria o tempo ideal de amamentar e desmamar também… Com o sono começando a se estabilizar nesta fase e a mãe voltar à rotina de antes, ter outro filho antes deste tempo necessário de maturação cerebral, seria algo difícil de administrar; ainda mais da mãe não contar com uma rede de apoio ou se ela acabar sendo a figura principal para atender as necessidades extenuantes de cada filho em tempo integral. Então, pensando em termos biológicos do desenvolvimento infantil, o espaçamento para a mãe programar outra gravidez, seria mais ou menos neste espaço de tempo… Ainda estou falando do IDEAL, e talvez, para as mulheres que ainda não tiveram filhos, talvez essa informação seja útil para algumas delas.

Mas, como quero falar de uma maternidade REAL, eu e você sabemos que a coisa é bem diferente não é mesmo? São muitas ideias sobre esta decisão de ter mais filhos. Muitas delas se embasam numa decisão apressada de ter logo todos os filhos que se deseja porque o tempo de retomada da carreira e do trabalho urge; outras vezes, o relógio biolólogico está atrasado e outras questões culturais como, por exemplo, o senso comum de “é melhor ter todo de uma vez e ter um trabalho só”, dentre outras verdades que nasceram no decorrer do tempo.

Por favor, preste atenção no que vou escrever agora.

Assim como todo filho é ÚNICO, toda mãe é ÚNICA também. E nesta individualidade materna – que é de direito de todas nós mulheres – muitas vezes estamos sufocadas por uma outra ideia muito difundida de que “ser mãe é ter o dom de ser mais compreensivo e altruísta do mundo inteiro!… mas isso não é verdade, queridas. Eu desejo que cada mãe nunca abandone a sua individualidade em detrimento de ter ser perdido nesta aventura chamada maternidade. Então, nunca perca de vista você mesma!

 

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Tornar-se mãe é um processo visceral, acima de tudo. Muitas emoções são rapidamente transformadas (algumas abandonadas) e outras amadurecidas no processo: passamos de seres com individualidade e vontade próprias para seres totalmente dispostas a ceder eternamente (ceder nosso tempo, nossos desejos, nossas necessidades, nossas vontades e até, os nossos sonhos). Em algum momento, isso se tornou uma regra imutável, e parece que todo mundo ficou confortável com ela, passando a não refletir ou questionar mais se esta mulher agora está realmente feliz nesta nova posição que ela se encontra. O fardo é pesado, diga-se de passagem.

Pensar contrariamente à isto é quase um pecado. A nova mãe quase que aceita essa “sentença” destinada à ela e vai passando a aceitar TUDO também, em doses homeopáticas: estagnar por um tempo seus projetos pessoais de vida, conquistas, vontades e um desejo muito genuíno (e internalizado) de ser realmente reconhecida como mãe, tudo em nome da Família. É um ato nobre. Mas, me preocupa muito quando vejo que no fundo, que elas continuam totalmente confusas, perdidas e culpadas  na maior parte do tempo…

Vejam este vídeo e se me digam se não se indentifcam MUITO com ele (quem não gostaria de ganhar uma carta dessas?): http://historiascomvalor.com/sua-esposa-chega-sempre-cansada-todas-as-noites-um-dia-resolveu-espiona-la-e-descobre-a-verdade/*

Se a maternidade é a internalização do exercício de um amor incondicional por um ser fofo e totalmente amável, porque elas sofrem tanto?

Talvez a resposta para esta pergunta, seja a de que é humanamente impossível tantas atribuições para uma pessoa só. Todos os filhos, no fundo, desejariam ser Únicos. O “laboratório” chamado lar, é um ambiente altamente desafiador e cansativo: uma luta constante dos filhos pelo reconhecimento da sua individualidade, da sua vontade, da sua necessidade, partilhando toda esta atenção de um único ser chamado mãe (e pai) para tudo isso. Uma luta constante pelo seu espaço e por ser realmente compreendido e atendido. Pelo menos, é um bom laboratório para a vida porque a vida no mundo é mais ou menos semelhante…

APENAS DOIS CONSELHOS

O Primeiro, para as mulheres que estão embarcando neste maravilhosa jornada de se tornarem mães de vários filhos:

  • Faça um ritual de “iniciação materna“: converse com outras mulheres da sua família e do seu convívio diário (amigas que já são mães); faça parte de grupos virtuais maternos e leia os relatos e vivências delas; procure saber mais sobre o lento e intenso processo de desenvolvimento de um bebê e o quanto de tempo você terá de dedicar principalmente aos primeiros três anos de sua vida e o quanto é desafiador este papel de ser uma mãe de mais de um filho. Faça uma “poupança de tempo e de sentimentos” preventiva: assim como tudo na vida, a maternidade deve ser programada e pensada à curto, médio e longo prazos.
  • E também, uma poupança financeira: é preciso ter dinheiro para se ter filhos! Ele é muito útil para você criar uma rede moderna de apoio e ela garantirá que este tempo que ficará afastada do mercado de trabalho, suas reservar irão ajudar a pagar as contas… E por fim, tenha em mente que seus filhos serão dependentes emocionalmente e cognitivamente de vocês por longos anos a fio… É um caminho sem volta, mas um caminho que vale muito a pena ser trilhado, porque ele é maravilhoso e repleto de ganhos duradouros!

O Segundo, mas para as mães que estão num “mar de dúvidas, culpas e completa exaustão” neste caminho sem volta com seus filhos pequenos:

  • A coisa mais importante: esse processo intenso e exaustivo de filhos pequenos vai passar! O tempo é de grande turbulência, onde manter o equilíbrio e se livrar das culpas desnecessárias é a primeira coisa que você precisa fazer. Nada é fácil e a realidade é exatamente esta: cada filho cobrando sua atenção exclusiva, desejando você só para ele, brigando com seus irmãos por conta disto o tempo todo e você provavelmente se sentindo um “fracasso como mãe”. Sem lamento, bola para frente. Ter mais filhos significa ter menos recursos financeiros e provavelmente seu marido irá passar mais tempo longe de casa, isso é inevitável… Você não vai enlouquecer fazendo apenas aquilo que é POSSÍVEL você fazer. Sozinha e sem ajuda, faça o favor de NUNCA se punir! O único juiz da sua maternidade seria você, pois seus filhos nunca farão este papel porque o seu amor por eles basta; é uma escolha sábia simplesmente não transformar a sua maternidade em um tribunal materno. Se livre também dos julgamentos pesados que os outros impõem à vocês: se eles não ajudam…
  • Às vezes precisamos simplificar tudo. Quando finalmente as mães compreendem que elas nunca serão por inteiro para seus filhos estas “fragmentações” de mães que você consegue ser, são totalmente válidas. A vida é assim… Ter irmãos é uma benção, pois é a oportunidade de não passarmos “sozinhos” nesta vida. Os benefícios são infinitamente maiores também. Por fim, não gaste sua energia esperando algo das outras pessoas, porque muitas vezes isso poderá ser frustrante. Faça o que precisa ser feito, seja grata sempre. Alguns dias serão melhores e outros não; mas lembre-se, você está em construção, sempre. Isso, por toda a sua vida, então,  maternidade é apenas mais uma fase. A alternativa é também passar por ela com coragem e leveza. E o mais importante: seja muito gentil com você mesma.

Sei que talvez muitas de vocês, gostariam de ler algo como “10 passos para não enlouquecer com a maternidade”, mas isso é um assunto para um outro post… Refletir sobre o que eu escrevi hoje, já é um belo começo.

 

Um beijo fraternal para cada uma de vocês,

*Itsumo-Arigato-Project (Projeto-Obrigado-Sempre)

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  • Edhileuza Lopes De Oliveira Du

    Mãe de 4… 17/12/06/01…
    Exausta e estafada. ..parece que eu não existo mais!

    • Simone De Carvalho

      Vai voltar a existir querida, tudo tem seu tempo e ordem de prioridades. Força para você! Grande abraço,

      • Edhileuza

        Obrigada querida!
        Há dias bons…outros ruins…ainda estou aprendendo a cada dia!