Você cria seus filhos para o mundo?

Imagem: Pinterest

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Você cria seus filhos para o mundo? Não é raro escutarmos mães e pais afirmarem que criam seus filhos para o mundo. Eles defendem técnicas assertivas, corretas e causadoras da felicidade futura do filho. Fiquei pensando seriamente no que essa afirmação, isso de criar os filhos para o mundo, e o que isso deveria significar.

Como seria criar o seu filho para o mundo? E como fazer isso corretamente? Será que existe uma fórmula? Fiz essas perguntas para algumas mães, mulheres que respeito por seus posicionamentos na vida. Algumas das respostas estão ao longo do texto e foram fundamentais para que eu entendesse melhor essa questão.

“Eu crio meus filhos para que sejam boas pessoas e capazes de viver bem com outras pessoas, dizer que os crio para o mundo seria estranho, pois sempre serão minha responsabilidade e não do “mundo”. A criação de nossos filhos interfere na vida de outras pessoas assim que se tornam seres sociais, a partir desse momento, tudo que passamos à eles passa a ser compartilhado com o mundo.” 

Demilene Rodrigues de Oliveria, estudante e mãe de três

A verdade é que não há uma fórmula pronta. A criação de uma criança depende – e muito – dos valores da família onde ela está inserida. O que é bom para uma família pode não ser bom para outra. Então, o que eu quero nesta reflexão, é passar a vocês a importância de ter mais tolerância com a diferença e com quem pensa diferente de você. Se há gente que nem respeita os outros, acha que os outros têm de pensar como eles pensam, imagina como tratam o próprio filho?

É muito importante ter padrões de conduta éticos e morais. Tratar bem as pessoas e ser bom para a humanidade,  é básico na educação de um ser humano. Mas basear sua verdade como verdade fundamental para todos é desumano, é intolerância com o diferente. É pré-conceito. E nesta época em que vivemos, precisamos desenvolver mais o respeito pelo próximo e pelo seu pensamento. Vejam bem, isso nem de longe significa que devemos todos pensar as mesmas coisas; é lógico que você tem opinião própria, tem seu jeito de pensar, sua educação e seus valores.

Assunto difícil porque falei aqui de duas coisas: uma, é que o filho não é sua propriedade. Outra, que a gente tem a mania de desrespeitar e não escutar as diferenças. Dois assuntos diferentes, mas que andam juntos na educação dos filhos. Como fazer? Como criar meu filho? Como eu faço pra passar o que eu penso e ainda respeitar o filho como diferente de mim e sem que ele tenha de satisfazer os MEUS sonhos e as MINHAS expectativas?

“Ao mesmo tempo em que me preocupo em fornecer instrumentos que permitam que eles sejam autônomos e seguros, enfrento minhas batalhas na construção de um mundo mais acolhedor e inclusivo. Por ser mãe de duas crianças com alergia alimentar, tenho uma percepção particular de quanto o “mundo” pode ser castrador e hostil no que diz respeito à empatia.  O que estamos fazendo é sedimentar a base para que eles consigam enfrentar as situações cotidianas com menos frustração. O esforço que a família desempenha é para que eles sejam acolhidos em qualquer situação mesmo com as restrições alimentares impostas. Procuramos não fazer da alergia uma questão enorme e pesada sobre eles, porque ela é só uma parte daquilo que eles são. No restante, a vida deles é igual à de uma criança qualquer. Com isso, eu acredito fornecer alguns dos instrumentos para despertar neles a atenção às necessidades alheias e acolhimento das diferenças dos outros. Ao mesmo tempo, acredito que fornecemos base para que eles consigam entender que a vida é feita de escolhas e que elas dependem unicamente de nós”.

Heloize Milano, bióloga, mãe de dois

Você já escuta o outro pensando em como corrigi-lo e convencê-lo a mudar o quanto antes de ideia? Ou, você é tolerante com o pensamento do outro? E escuta o outro como “um outro”?  As pessoas que acham suas verdades universais, tendem a respeitar menos o pensamento do próprio filho, sabiam? Como se o pensamento do filho ainda não valesse; inclusive essas pessoas acreditam que nem o corpo do filho é do filho, pois não respeitam as escolhas de roupas dos filhos, cortes de cabelo, se vão ou não usar brincos…

Os filhos podem e devem ser orientados, mas sabiam que eles podem ser ouvidos? Que podem ser respeitados em vários sentidos? Cada criança é única, tem tempos diferentes, umas são mais rápidas que outras, outras são mais tímidas que outras, sabiam? Nem todas gostam de usar brincos, alguns meninos vão gostar de brincos; nem todas as meninas gostam de usar vestidos, nem todos os meninos gostam de futebol…Vocês forçam seus filhos a gostarem de coisas que VOCÊS pais acham importantes, com a desculpa que o mundo vai cobrar isso deles?

Será que você é quem acha isso importante e queria ter tido isso na infância e agora está tentando fazer com seu filho o que faltou pra você? Eu sei, eu sei, nenhum pai quer que o filho sofra… mas, infelizmente, não podemos cuidar dele para sempre. Muitas vezes, eles terão que decidir algo sem a nossa presença. Se passarmos a vida escolhendo por ele o que ele tem de fazer, como ele tem de pensar, o que deve vestir, quando chegar a idade adulta, como esperar que ele reflita e decida sozinho?

Pode parecer óbvio, mas o que eu mais escuto são afirmações como: “eu passei muita dificuldade, não quero que meu filho passe isso” ou “eu nunca tive um brinco, quero que minha filha possa ter tudo que nunca tive” ainda, “eu nunca pude comprar uma maquiagem, que minha filha possa ter tudo que eu puder comprar”;“nunca suportei birra”, “meu filho nunca vai fazer isso”  e “fulano sempre vai embora quando filho está cansado, meu filho nunca vai mandar em mim” . É possível que vocês mesmos já tenham dito isso ou pensado assim…

“Eu educo a cria para conviver em sociedade, uma sociedade que ela respeite a diversidade infinita de pessoas. Para que ela entenda seu papel no mundo e colabore para que ele seja um pouco melhor sim. Onde ela perceba seus privilégios (que como ela nasceu menina, basicamente só o de ser branca) e possa confrontá-los, para reparar pessoas que não os obtém. Aqui a educação é baseada em respeito à si mesma e também as diferenças. Eu acho que é isso a ideia de “criar para o mundo”. 

 Kesia Salgado, feminista e mãe de uma menina

Vejo crianças criadas para obedecerem regras que os pais ditaram antes mesmo delas nascerem… Pais que querem receber elogios, mas esquecem que filhos não são uma vitrine para serem admirados pelos outros, muito menos bonecos de argila para serem moldados sem direito a opiniões próprias.

Ao invés de criar seus filhos tão preocupados com o que o mundo vai pensar, precisamos melhorar, fazer uma análise dos nossos próprios comportamentos e o que poderia mudar, resolver nossos próprios conflitos internos… Para sermos melhores pais observar mais os nossos filhos, respeitar o tempo de cada um deles, suas personalidades. Devemos ser o mais presente possível, mais tranquilos, menos preconceituosos e mais humanos.

Quando um filho nasce, sabe qual é o mundo dele? A família onde ele vai crescer. O pai, a mãe, o avô, a avó (quem for cuidar dessa criança) é o mundo que essa criança vai ter. Para essa criança, ter o melhor mundo que ela puder, enquanto é criança, é fundamental. Esses filhos aos serem amados, bem cuidados, respeitados, estarão aptos a viverem bem no mundo adulto, quando forem adultos.

Um dia desses, lendo sobre um caso de agressão contra uma adolescente, comecei a pensar sobre a dificuldade das pessoas em perceber que o outro não é da pessoa, não é propriedade, não lhe pertence. Nesse caso, várias pessoas justificando que a mãe tinha de ter espancado mesmo a adolescente, porque adolescente é “difícil” e se ela não batesse agora, depois a adolescente bateria na mãe.

Depois li o caso de um marido espancando a mulher porque leu no diário dela que ela achava um ator desejável sexualmente, e se achou no direito de “cortar o mal pela raiz” dando uma surra na mulher para que ela aprendesse a controlar seus pensamentos. Depositamos a felicidade em alguém, achamos que o outro é nosso, e daí quando esse outro decide ser feliz com outra pessoa, nós perdemos o rumo, perdemos o controle e matamos ou morremos…

E daí fiquei pensando nos nossos filhos. Muitos pais acreditam mesmo que o filho é propriedade, que por ter-lhes dado a vida podem fazer o que quiserem com eles. Quem nunca ouviu: “É meu filho, eu faço como eu quiser”, “Toda mãe sabe o que é melhor para o seu filho” ,“Podem falar à vontade, mas na minha casa , com meu filho quem manda sou eu!”?

Mas não é bem assim. Há leis que protegem essas crianças, nem todos os pais fazem o que é melhor para os seus filhos. Há pais que se sentem no direito de tirar a vida, de punir como bem entender, de colocar seus filhos em situações embaraçosas para aprenderem “a ser gente” há casos de pais que se sentem no direito de abusar dos seus filhos… há tantas formas de agressão, humilhação, abuso e violência.

Como bem diz o Estatuto da Criança e do Adolescente “Art. 5°Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.”

Mas existem outras formas de opressão, mais suaves, que parecem ser mais aceitas. Pais que escolhem o futuro profissional do filho ou que escolhem quem seria a melhor escolha para o casamento, sim, isso ainda existe. Ou, que nomeiam mulheres de “bruxas” para que seu filho nunca saia de casa. Pais que, pelo bem do filho, lhes dão medicação por conta própria para dormirem.

Pais que andam no carro com recém-nascidos sem o aparato correto para o bebê, porque o filho é meu e eu decido o que é melhor… Pais que não deixam os meninos lavarem uma louça porque isso lhes faria virar meninas ou afeminados; pais que proíbem meninas de brincar de futebol para não as tornarem masculinizadas. Pais que forçam crianças tímidas a beijar desconhecidos para cumprimentar provando a boa educação que receberam.

Pais, seus filhos não lhes pertencem para fazerem com eles o que quiserem!

Gostaria de finalizar que, seu filho, como qualquer outra pessoa, é um outro, não é sua extensão, não é algo que lhe pertence, e como um outro ser vivo, diferente de você, merece ser respeitado e amado, mesmo diferente do que você gostaria. E isso não é ser super-protetora, não é ser mãezona no sentido pejorativo da palavra. Uma vez ouvi que tem pessoas que são mãezonas e não dão conta de educar seus filhos como se deve porque não são duras o suficiente… Mas se ter respeito, não oprimir , escutar seu filho como um ser que tem opinião própria é ser mãezona, então SIM, eu sou mãezona com muito orgulho.

Beijos, Vê

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