Como não criar filhos “sobreviventes”

Imagem: Pinterest

Imagem: Pinterest

Comentário geral no país: o Brasil está em crise. Crise vem do grego, que significa crescimento. De alguma maneira, todos nós vamos florescer diante das dificuldades. O ser humano é resiliente e se acostuma e transmuta com muita facilidade conforme o ambiente que ele permeia. Por isso, penso sempre em como não criar filhos sobreviventes.

Mas o que a crise e a política têm a ver com a criação de nossos filhos?

Aparentemente nada, mas tem sim, e muito. Fui criada em uma época de inflação altíssima, me lembro que ia ao mercado pela manhã e à tarde o mesmo produto já estava remarcado. Fui criada para adquirir produtos à vista e para negociar descontos. Se tem dinheiro, compra, se não tem, não compra. Simples!

Mas também fui criada para saber me virar. A grana encurtou, adeus empregada, vamos juntos limpar a casa, e ok! O chuveiro estourou, lá vou eu, menina de tudo, no comércio de elétrica perto de casa, para comprar uma resistência e trocar. E aquela época medonha em que nossos pais fumavam e mandavam a gente ir comprar cigarro no bar? E se não tinha a marca que eles fumavam, jamais poderíamos voltar para casa sem o “maldito” cigarro; então a gente dava nossos pulos e ia de bar em bar, de padaria em padaria, até achar… Nossos pais não falavam “obrigado” e “por favor”, afinal não fazíamos nada além de nossa obrigação. Aliás, era tudo assim, né? Passou de ano, não fez mais nada que sua obrigação; Fez a lição de casa, não fez mais nada que a obrigação; Ficou quietinho enquanto os adultos conversavam, não fez mais nada que sua obrigação.

Obviamente, não queremos mais isso para nossos filhos, não queremos mais criar “sobreviventes”, não queremos mais bater em nossas crianças, não queremos mais criar nossos filhos somente com os bens materiais básicos, e continuamos acreditando que agindo assim, não estamos fazendo nada além de nossa obrigação. É natural que desejemos dar aos nossos filhos tudo o que não tivemos.

Claro que precisamos acompanhar a mudança social e política do país, estamos quebrando ciclos hierárquicos que eu admiro e aprovo demais. A filha da minha faxineira estuda e não será faxineira: ela frequenta uma faculdade e já trabalha atendendo telefone em uma empresa de telemarketing. Isso é uma evolução e tanto! Mas quando todas as faxineiras não existirem mais e esse tipo de prestação de serviço valer ouro e for paga por hora, eu desejo do fundo do meu coração que minha filha saiba cuidar e limpar da casa dela.

Estamos criando reis e rainhas? Eu creio que não. Sinto que cada vez que não ensinamos nossos filhos a fazerem coisas de casa, poupando-os, estamos, na verdade, é criando a cultura da desinformação. Criando excelência em sabedoria verbal, mas falhando na ação, no realizar, no fazer. Sabe, tipo pôr a mão na massa mesmo?

Claramente, tudo leva tempo e como sempre menciono nos meus textos, para tudo que exige uma criação assertiva e efetiva, precisamos de conexão e muita paciência. Isso vai levar um pouco do seu tempo, da sua disposição, mas aí sim posso dizer que você estará criando um ser humano para a vida, esta vida que segue, que cobra, que exige e que agora está exigindo muito mais do que ter um simples diploma e falar outras línguas.

Exige inteligência emocional, resiliência, comportamento adequado nos grupos e uma infinidade de outras coisas. Como criaremos seres humanos com essas características se não permitimos que eles participem de tudo o que fazemos? Não podemos ter dó e piedade. Criança pode ajudar, criança pode sim ter obrigações fixas estipuladas, criança pode sim assumir uma tarefa enquanto você mãe se permite tomar um banho delicioso e com calma, e principalmente sem culpa. Jamais estaremos amando menos nossas crianças se ensinarmos valores e realizações para elas.

Me lembro que, aos 17 anos, fiz uma viagem para um sítio com uns 20 jovens. Fizemos uma compra gigante de mercado, incluindo desde carne até legumes. Na hora de rachar os valores, todos foram aptos e participativos, mas quando chegou a hora da primeira refeição, somente eu sabia cozinhar. Que interessante! Foi a primeira vez que liderei uma cozinha com 20 pessoas, minha primeira experiência em gerenciamento. E se… e se… eu não soubesse cozinhar? Comeríamos macarrão com atum todos os dias? Também estamos criando crianças com uma consciência alimentar, lembram? Mas se elas não souberem fazer o próprio alimento, como vão se alimentar bem minha gente?

Dica: Peguem essas lindas criancinhas e façam as coisas junto com elas, essas coisas simples que não precisam de dinheiro ou de grande sabedoria. Criem o lúdico. Ensinem a separar as roupas brancas das coloridas em dois montes e mostrem como a máquina de lavar roupas gira. Espalhem os legumes e verduras numa mesa e deixem que seus filhos cheirem os alimentos, toquem e manuseiem, mostrando a eles que esses alimentos crus serão cozidos e que se transformarão no seu jantar. Andem de ônibus e mostrem o caminho, eles ficarão encantados ao aprenderem que ruas também têm nomes. Ensinem que vocês podem conversar sobre diferentes ideias e percebam como eles se tornarão companhias agradáveis e divertidas. Mostrem a eles que as coisas não são autolimpantes e que todos os tipos de trabalho são dignos e necessários.

O SABER É MÁGICO E LIBERTADOR!

E, se um dia a crise bater na sua porta, lembrem-se que eles saberão transcender e vão te apoiar, não ficarão acuados ou doentes.

Fiquem com Deus!

Um beijo para todas,

Debora

Share Button