Meu filho manda em mim!

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Imagem: Pinterest

Seu filho é quem escolhe qual o canal de televisão que a família toda deve assistir? É ele quem decide se todos irão sair ou ficar em casa? E é ele quem escolhe o cardápio da família toda ou determina a que horas irá dormir, comer, acordar, arrumar suas próprias coisas? Então espere, alguma coisa está errada. Você deve estar pensando: meu filho manda em mim!

Por vezes os pais não percebem ou não sabem como agir e acabam achando que a permissividade é um direito de autonomia da criança, de igualdade de direitos, de amor incondicional. Mas quando se deparam com situações em que a falta de pulso se torna presente e fortemente prejudicial, começam as preocupações. E sabe o pior de tudo isso? Quem mais sofre com essa falta de limites é, sem dúvida nenhuma, a própria criança.

Freud, em um dos seus primeiros textos, sinalizou que o bebê da casa é “a vossa majestade”. Por ser fruto do narcisismo dos pais, das suas projeções e desejos, passa a ser o centro das atenções não só deles, mas de todos ao seu redor. É completamente natural e saudável que isso aconteça até o primeiro ou no máximo segundo ano de vida, mas depois disso a criança precisa começar a aprender como se relacionar com as outras pessoas e respeitar o espaço de cada uma delas. Precisa deixar o seu “trono” para aprender a conviver em sociedade, dividindo objetos, carinho e atenção, sabendo esperar e buscar seus próprios desejos, sempre respeitando e ajudando o próximo.

Historicamente, tivemos muitas mudanças no panorama e nas configurações da família. Mulheres e mães começaram a trabalhar o dia todo e voltar para casa no mesmo horário que seus maridos, tendo o tempo ainda mais restrito. Passaram a ter menos contato com os seus filhos, delegando funções às avós e ajudantes para que pudessem dar conta de tudo. O que aconteceu depois de algum tempo foi um baque, um boom enorme de culpa caiu sobre os pais e se expandiu por intermédio de discursos de educadores e vozes importantes, clamando todos pelo retorno da família. A partir daí, muitas mães e pais, sentindo-se culpados pela ausência, iniciaram um trabalho de “compensação” de tempo e daí vocês já sabem, iniciaram o trajeto inverso, porém de uma maneira muitas vezes desenfreada, acarretando diversos problemas que se potencializam dia após dia.

Hoje em dia, há uma necessidade tão grande de cuidar, de demonstrar carinho, de suprir todas as necessidades dos filhos, que muitos pais acabam ficando desnorteados e perdendo um pouco (ou muito) a mão. A própria vaidade faz com que os pais considerem o filho a criatura mais especial e importante do mundo, podendo ofuscar a seriedade das regras, compromissos e comportamentos. Há pais que preferem culpar a escola, uma outra criança ou ainda o professor, do que olhar para dentro de sua própria família e realizar uma reflexão real e concreta.

Mas o que fazer e como fazer nessas situações?

Bom, primeiro, se você deixa o seu filho ser o “dono da casa”, se tudo gira em torno dele, comece revendo os seus conceitos. Sim, ele é a pessoa mais importante do mundo para você, e não há o que negar nisso. Mas cuidado, ele PRECISA aprender que os pais, por mais que queiram, não podem e não devem estar 100% à sua disposição. Que não é ele quem vai determinar o que vai comer ou não, ou o canal de televisão que a família toda vai assistir.

Os ajustes necessários podem ser sutis e gradativos e devem partir dos pais, sendo mantidos por avós e cuidadores. É a criança que precisa se adaptar às regras da casa e seguir os pais como referência, não o contrário. Quando o contrário acontece, além da criança achar que pode tudo, poderá ainda desenvolver uma grande insegurança no futuro, fruto da falta de referências e de bases mais sólidas e rígidas. Aquela criança que tem dificuldade de aceitar que o mundo não gira em torno dela e que nem todos farão tudo por ela, terá muita dificuldade de lidar com frustrações e talvez coloque toda a culpa disso em cima dos próprios pais. Então, vamos agir desde já?

Um abraço a todos!

Priscilla T. Brandeker

CRP 06/123945

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