Aleitamento materno e a pobreza, pobre fazendo pobrice

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Fonte: bolsademulher.com

“Bombou” na internet um comentário pra lá de preconceituoso, relacionando o aleitamento materno e a pobreza, pobre fazendo pobrice e o pior, afirmando que as formulas infantis hoje em dia eram iguais ao leite materno, o que é uma falácia! Pra quem leu o nosso post sobre a bioquímica do leite humano  sabe que isso está longe de ser verdade, se bem as fórmulas hoje em dia são muito melhores do que a 20, 40 anos, há um longo caminho pela frente antes de alcançar a excelência do leite materno.

Mas deixemos isso de lado, afinal a internet está cheia de gente criando polêmica e querendo aparecer. A verdade é que com uma frequência bem maior do que deveríamos escutamos a afirmação de que as campanhas para aleitamento materno são voltadas para as pessoas de baixo poder econômico ou de forma mais direta que: amamentar é “coisa de pobre” ou como foi falado, “pobre fazendo pobrice”. E ser “pobre” é um problema? Ser pobre é uma condição que afeta apenas a pessoa em si, não é mérito ou demérito. É uma questão sócio-econômica e só.

Houve um tempo em que não havia um leite modificado para os bebês. Aqueles bebês que não podiam ser amamentados pela própria mãe, estariam condenados à morte, a não ser que outras mulheres pudessem fazê-lo. A figura da Ama-de-Leite é antiga, beeem antiga, e o Código de Hamurábi  trazia regras de conduta para a profissão. Não era uma questão necessariamente de status social e sim de necessidade, óbvio que para quem tinha poucos recursos era complicado solucionar, já que nem sempre ia poder pagar uma mulher pelo serviço e, era bem pouco provável que tivesse escravos logo. Aqui e ali ao longo da história se fala de aleitamento e amas-de-leite. Há apenas um período em não há registros sobre o tema, justamente na idade média.

Maria Lúcia  Bosi e Márcia Machado no artigo em titulado Amamentação: um resgate histórico, publicado em 2005 pela Escola de Saúde Pública do Ceará, contam que na Inglaterra, entre séculos XVI e XVIII, as mulheres inglesas saudáveis não amamentavam, elas preferiam dar a luz a uma prole numerosa (entre 12 e 20 filhos) a amamentá-los; já naquela época havia a ideia de que a amamentação (não as gestações) “gastavam” o corpo das mulheres. Os bebês eram desmamados precocemente e lhes era oferecido cereais ou massas em colher. Outro fator a ser levado em conta (e que provavelmente foi o motivo da ideia de que o aleitamento “gastava” o corpo) é que as normas médico-religiosas da época proibiam as relações sexuais durante o período da amamentação por acreditarem que o sexo enfraquecia o leite humano (dá para acreditar?).

Passamos então por um período em que o costume era enviar os bebês para as casas das amas-de-leite e coincidentemente, houve um aumento nas taxas de mortalidade. Para muitos, o que acontecia era que as mulheres dada a oportunidade de dinheiro – e segundo apontam era um serviço bem remunerado – aceitavam mais bebês do que conseguiam amamentar e muitos eram na verdade alimentados de maneira precária e, como a noção de higiene na época era também precária,  era oferecida água suja contaminada em utensílios sujos. No século XVIII até se sugeriu proibir as amas-de-leite, mas esta sofrera resistência das mulheres que se viam na “obrigação” de amamentar, uma maneira de serem mantidas em casa e longe da arena política.

Mas foi depois da Segunda Guerra Mundial que o uso do leite em pó se popularizou e a “fórmula” deixou de ser uma mistura caseira (em geral leite –crua- creme, açúcar ou mel). Se antigamente, as mães mostravam prestígio social contratando uma ama-de-leite, agora, as mulheres mais abastadas,  faziam isto alimentando seus filhos com um alimento industrializado. Soma-se à isso a entrada massiva da mulher no mercado de trabalho. O aleitamento materno passou então a ser visto como anti-higiênico e antiguado, fora de moda.

A nossa natureza faz como que aspiramos a ser mais, a termos mais e isso é facilmente é associado com melhor, a sermos melhores. Fazemos isso de várias maneiras, com coisas totalmente distintas e por vezes sem prestar muita atenção. Em uma sociedade voltada ao consumo (e não estou falando que o consumo seja bom ou ruim) o preço das coisas que consumimos aponta o nosso lugar  na pirâmide capitalista e quanto mais caro, supostamente mais perto do “topo” estamos. Em nenhum momento a preocupação é com a qualidade, muito menos a durabilidade, e sim o quanto pagamos. Numa sociedade assim, quando algo que é grátis, ou melhor não tem atribuído um valor monetário (estou falando do leite materno), é apresentado como a melhor opção para muitos,  é realmente difícil de acreditar. Adicione aí o trabalho que a indústria tem feito junto aos profissionais de saúde há mais de 70  anos, para vender seu produto. Imaginem a quantidade de mitos e falácias que rodam as conversas sobre maternidade!

A melhor forma de ganhar uma batalha ou uma causa é fazer valer o seu direito à liberdade, realizar sua vontade é sempre buscar informação!  Quando alguém, seja quem for, atrela o ato de amamentar com nível social é, no mínimo, digno de pena, pois maior ignorância não há.  Quem dera todos os "palácios" ou comunidades, nobreza ou plebe amamentassem livremente, com incentivo, empoderamento e acima de tudo respeito. Amamente seu bebê, busque sempre informação e não deixe nunca que ninguém invada seu espaço e te atinja com pitacos, palpites ou opiniões erradas!

A melhor forma de ganhar uma batalha ou uma causa é fazer valer o seu direito à liberdade, realizar sua vontade é sempre buscar informação!
Quando alguém, seja quem for, atrela o ato de amamentar com nível social é, no mínimo, digno de pena, pois maior ignorância não há.
Quem dera todos os “palácios” ou comunidades, nobreza ou plebe amamentassem livremente, com incentivo, empoderamento e acima de tudo respeito.
Amamente seu bebê, busque sempre informação e não deixe nunca que ninguém invada seu espaço e te atinja com pitacos, palpites ou opiniões erradas!

Em tempos polarizados como os que estamos vivendo foi a foto de uma mãe eslovaca, de 2013, amamentando sua filha com então 17 meses enquanto andava de bicicleta, que serviu de estopim para alguém chamar a atenção e minar ainda mais um campo já tão estressado. Ao ler os comentários fica evidente que o aleitamento materno não tem apoio da sociedade, as mães que escolhem amamentar e exercem esse direito de maneira livre passam por várias situações de discriminação, chegando ao ponto em que é preciso ter leis garantindo ás mulheres o direito de amamentar onde bem entenderem. Aos que defendem o direito da mulher de amamentar e o acesso a informações de qualidade sobre o assunto, é um golpe duro e vemos o árduo caminho que temos pela frente.

 

 

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